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 Escolas Particulares cautelosas com a crise

Adhemar Oricchio

O setor econômico brasileiro iniciou o ano de 2009 com muitas incertezas. O que o governo apregoava como uma “marolinha” em 2008 transformou-se em uma crise, principalmente na área de créditos e investimentos. Dezembro apresentou números preocupantes no que se refere ao desemprego. Só em São Paulo foram suprimidas 130 mil vagas de trabalho.  Aparentemente a crise não atingiu as escolas particulares, pelo menos é o que indica as pesquisas realizadas pelo Sieeesp (Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino no Estado de São Paulo), pois os números mostram que a inadimplência teve ligeira queda – 9,47% em 2008 contra 9,68% em 2007.

Para mostrar a real situação da crise brasileira e os seus reflexos para a escola particular, segmento que representa 1,5% do PIB Nacional, o Sindicato ouviu o economista Salomão Quadros, Coordenador de Análises Econômicas do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (IBRE-FGV).

 Entre outros trabalhos, o professor Salomão Quadros realizou, a pedido da Fenep (Federação Nacional das Escolas Particulares), três pesquisas: duas delas, em 2004 e 2005, objetivaram a caracterização dos estabelecimentos escolares. O último, em 2008, identifica o perfil das famílias que utilizam a rede privada de ensino. No final da entrevista, há a conclusão do trabalho a respeito do cliente da escola particular.

Jornal da Escola Particular: A crise financeira que atinge a economia mundial desde meados de 2008 já chegou ao Brasil?

Salomão Quadros: A crise, que já não é somente financeira, pois está afetando diversos setores, começou a se fazer sentir no Brasil a partir do quarto trimestre de 2008. O dólar subiu cerca de 50%, os preços das ações caíram em torno de 50% e a produção industrial já está em queda.

Jornal: Quais as áreas da economia brasileira mais atingidas?

S. Quadros: Os setores que dependem de crédito, como a indústria automobilística e a construção, e aqueles voltados para exportação, como carnes, calçados e mineração.

Jornal: Pontualmente, queremos mostrar se a crise já afetou o segmento particular de ensino, de que forma?

S. Quadros: Até o momento não há indicação de que as escolas particulares tenham sido afetadas. De qualquer maneira, se a crise se alastrar, com o aumento do desemprego, o setor de serviços do qual fazem parte as escolas será afetado.

Jornal: A escola particular tem uma peculiaridade: ela tem que determinar o aumento de mensalidade para o ano seguinte 45 dias antes do início das aulas. Isso foi feito no início do mês de dezembro de 2008 e, por um ano, não pode mais reajustar suas mensalidades. A crise pegou a escola no meio do caminho? O setor já foi afetado por ela? De que forma?

S. Quadros: As mensalidades foram fixadas para 2009 provavelmente tendo em vista um cenário econômico favorável, como o de 2008. O que se espera para 2009 é a diminuição da inflação, não devendo ocorrer aumentos de custos que necessitem de repasse. Por outro lado, com menor inflação o orçamento familiar fica mais protegido. O risco é que na hipótese de uma piora da situação econômica, com aumento do desemprego, as famílias enfrentem dificuldades para o pagamento.

Jornal: Qual a saída para as escolas particulares? Como orientar os mantenedores?

 

 

 

 

S. Quadros: As escolas devem acompanhar as informações sobre as condições da economia, especialmente do mercado de trabalho, para sentir se sua clientela está efetivamente encontrando dificuldades de fazer face a seus compromissos. O noticiário tem assustado o público, mas as condições econômicas no país ainda não se deterioram significativamente. A taxa de desemprego no último trimestre de 2008 foi de 7,3%, a mais baixa desde 2002 quando o IBGE começou a divulgar a nova série. Os salários subiram 4% acima da inflação. É verdade que até o meio do ano o ritmo de criação de empregos estava mais acelerado, mas até o momento a crise afetou pouco o mercado de trabalho. De qualquer maneira, vale a pena estreitar o diálogo com as famílias para sentir de perto suas reais dificuldades em um cenário de piora das condições econômicas.

 

CONCLUSÃO

 

Confira a íntegra da conclusão do trabalho Características demográficas e estrutura orçamentária das famílias usuárias da rede privada de ensino, feita por Salomão Quadros em uma parceria entre a Fundação Getúlio Vargas e a Federação Nacional das Escolas Particulares.

 

     “O grupo formado pelos 10.741.499 domicílios usuários da rede privada de ensino, apesar de não ser homogêneo, pela diversidade econômica e de hábitos de consumo de seus integrantes, possui características demográficas e orçamentárias identificadoras, tais como o nível de escolaridade mais elevado que a media da população, o mesmo se passando com a renda e o dispêndio com serviços, a começar da própria educação. O conhecimento destas características permite, entre outras coisas, o planejamento empresarial e a análise de impactos de mudanças econômicas e institucionais.

     A diversidade também é própria deste grupo. Não há um protótipo de família brasileira usuária da rede privada de ensino. O trabalho deixa clara esta distinção ao tabular informações para três classes de renda. As famílias que ganham até 3/5 salários mínimos dedicam em média 3,54% do seu orçamento às despesas com ensino formal, proporção que sobe a 7,78% na faixa acima de 15 salários mínimos. O próprio gasto com educação tem diferenças de composição em função do poder aquisitivo das famílias, sendo inicialmente mais concentrado no ensino infantil, mas diversificando-se à medida que a renda aumenta.

     Outras diferenças de composição de gastos também são visíveis. As mais evidentes se mostram nas principais categorias de despesa – alimentação e habitação – ambas mais presentes nos orçamentos das famílias de menor renda. Ao mesmo tempo, crescem com o poder aquisitivo das famílias as participações dos gastos com transporte próprio, rubrica em que se destaca o automóvel, planos de saúde, serviços domésticos, telefone celular, TV a cabo e despesas pessoais” .
     A diversidade de composições orçamentárias também é nítida na comparação entre unidades da federação. Diferenças de padrão de vida, resultantes da heterogeneidade econômica das regiões do país, explicam em boa parte porque as famílias residentes no Distrito Federal dirigem 11,21% de suas despesas à educação enquanto que as que moram na Paraíba dedicam 6,70%. Nem tudo, porém, se justifica pela renda. Em Santa Catarina, a proporção de gastos com educação é de 7,89% e, em Pernambuco, 7,48%. Os percentuais são muito similares, embora as condições econômicas dos dois estados, em termos de renda familiar, sejam bem distintas. A qualidade do ensino público, desigual entre as regiões, pode ajudar a elucidar a questão.
Este trabalho teve como objetivo descrever em pormenores as principais características econômicas das famílias usuárias das escolas particulares. Para tanto, foram processados os microdados da Pesquisa de Orçamentos Familiares, realizada pelo IBGE entre 2002 e 2003, o que possibilitou a construção da tabela e gráficos exclusivos. A riqueza de informações trazidas pelo trabalho levanta inúmeras questões acerca do comportamento econômico das famílias usuárias da rede privada de ensino e serve de motivação para uma abordagem analítica mais aprofundada, que, todavia, ultrapassa o presente escopo”.